"O relógio da igreja bateu oito horas.
- E agora? Era para a gente estar lá às sete e meia. Mas não faz mal, tem muita gente e vai sobrar brinquedo. Tem um caminhão cheio.
- Zezé, meu pé está doendo.
Abaixei.
- Vou desabotoar um pouco o cordão que melhora.
Íamos cada vez mais devagar. Parecia que o Mercado não chegava nunca. E depois ainda tínhamos que passar a Escola Pública e virar à direita na Rua do Cassino Bangu. O pior era o tempo que voava de propósito.
Mortos de cansaço, chegamos lá. Não havia ninguém. Nem parecia que houvera distribuição de brinquedo. Mas houvera, sim, porque a rua estava cheia de papel de seda amarrotado. A areia estava toda colorida de papel rasgado.
Meu coração começou a inquietar-se.
Chegamos defronte e seu Coquinho estava fechando as portas do Cassino.
Falei, afogueado, para o porteiro:
- Seu Coquinho, já acabou tudo?
- Tudo, Zezé. Vocês vieram muito tarde. Foi uma enchente.
Fechou meia porta e sorriu com bondade.
- Não sobrou nada. Nem para os meus sobrinhos.
Fechou a porta toda e veio para a rua.
- Ano que vem, vocês precisam vir mais cedo, seus dorminhocos!...
- Não faz mal.
Bem que fazia. Estava tão triste e decepcionado que preferia morrer a que tivesse acontecido aquilo.
- Vamos sentar ali. A gente precisa descansar um pouco.
(...) Por que o Menino Jesus não gosta de mim? Ele gosta até do boi e do burrinho do presépio. Mas de mim, não. Ele se vingava porque eu era afilhado do diabo. Se vingava de mim, deixando de dar presente ao meu irmão. Mas Luís, não merecia isso, porque era um anjo. Nenhum anjinho do céu podia ser melhor do que ele...
Aí as lágrimas me desceram covardemente.
- Zezé, você está chorando...
- Passa logo. Mesmo eu não sou um rei como você. Só sou uma coisa que não presta pra nada. Um menino muito malvado, bem malvado mesmo... Só isso"
in "Meu pé de laranja lima"

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