domingo, 12 de outubro de 2008

Macaca pintada


Madalena era uma mulher sozinha. Nunca nenhum homem havia sequer reparado nela, e no fundo ela também não reparava muito em homem nenhum. Há muito tempo que se havia conformado com a sua aparência pouco atraente e já nem se preocupava em tirar o buço. Também não tinha muitos amigos; os seus colegas de trabalho achavam-na um pouco aborrecida e as pessoas em geral, enfim... não reparavam nela.

Certo dia, Madalena foi ao jardim zoológico. Ao passar pela jaula dos macacos, distraída que ia a olhar para o chão (como quase sempre), nem reparou nos animaizinhos. Foi então, que um deles lhe lançou uma maçã que lhe acertou em cheio na cabeça. Madalena levantou os olhos, e fitou com fúria o macaco dentro da jaula. Naquele momento, gerou-se uma certa empatia, que fez imediatamente com que Madalena sentisse por aquele bicho uma ternura que nunca tinha sentido. No fundo, aquele era o primeiro ser, que em muitos, longos e solitários anos, tinha reparado nela.

Madalena resolveu naquele momento, que tinha que levar o macaco para sua casa. Não podia deixar que aquele ser encantador, continuasse na jaula de um jardim zoológico, enquanto que ela, não tão encantadora, se mantinha também sozinha na sua própria casa. Lá convenceu o administrador do jardim a vender-lhe o bicho.

Madalena deixou de viver sozinha, e passou a viver com Anacleto. Os esforços de Madalena para integrar o macaco na sociedade eram notórios. Mandou fazer-lhe um fato por medida, e agora Anacleto usava até risco ao lado. O problema era mesmo os modos. Por mais carinho e dedicação que Madalena empenhasse na sua educação, Anacleto não compreendia que não podia continuar a atirar objectos às pessoas na rua, e que guinchar, saltar e fazer as suas macacadas, também não era socialmente aceite.

No entanto, Madalena não desistia dele. Anacleto começava a manifestar sinais de afecto: tentava catar-lhe piolhos, e entrava em todas as frutarias para roubar bananas para a sua amiguinha. Ao atravessarem a rua, dava-lhe a mão. Madalena tinha dúvidas se isto era afecto ou medo dos carros, mas preferia acreditar na primeira.

Passados uns meses, solitários e respondendo ao chamamento da natureza, os dois passaram a viver maritalmente.
Com o tempo, Anacleto começou a ganhar terreno. Sentia-se capaz de atender o telefone lá de casa, coisa que passou a ser sempre ele a fazer, pois tentando marcar o seu território, aquele objecto tornou-se sua posse. Sendo sua posse, também nunca transmitia as chamadas a Madalena, limitava-se a atender, mandar os seus guinchos e desligar na cara da outra pessoa.

À parte os seus modos, o clima de romantismo crescia entre os dois. Madalena sentia-se querida no coração de alguém, e o facto de ser um macaco passava-lhe completamente ao lado. Preconceitos sociais de gente supérflua, pensava ela. Serem de meios diferentes, com educações diferentes, não podia ser um entrave à sua felicidade. Esses que os olhavam com estranheza, eram uns invejosos.

Madalena sentia-se menos sozinha, e rendida aos encantos do animal. Já não lhe incomodava os velhos modos que o seu cônjuge nunca perdera, e agora divertia-se a exibir as suas acrobacias à sociedade. "Amava-o pelo que ele era!". Já não o via como um macaco. Aos seus olhos era um homem cheio de sentido de humor, que lhe dava tudo o que ela nunca tivera: atenção e sexo (selvagem). Um bocadinho peludo e com feições semelhantes às do homo erectus, mas que interessava a parte física?

Madalena já se preocupava com o seu aspecto. O carinho daquele macho havia despertado em si toda a vaidade adormecida, até já usava um batonzinho. Os seus modos, por outro lado tendiam a ficar como os do seu companheiro.

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem te tornarás.

1 comentário:

Alm disse...

Isto até assusta!...

Saltarei sempre de costas: o importante é ter uma boa rede.